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Esta jornada o Braga recebeu e bateu o Sporting por 1-0, o Porto foi à Madeira cilindrar o Nacional por 4-0 e o Benfica aviou o Guimarães com 3-1.

Antigamente dizia-se que os campeonatos se ganhavam nos jogos entre os grandes. Nos primórdios da década de 90, criou-se a ideia contrária: os campeonatos perdem-se é com os pequenos. Neste começo de nova década, impõe-se o velho raciocínio: os jogos contra os pequenos apenas podem servir para uma equipa grande se afirmar (ou não) como candidata. É para somar os pontos todos (ou quantos os possíveis) para chegar aos jogos entre os outros grandes e decidir o título. O resto é conversa.

E como afirmou ontem Domingos Paciência, num exercício de lucidez: “”É evidente que este jogo poderia marcar uma diferença muito grande. São 15 pontos [para o Sporting], 16 porque estamos em vantagem e 15 não chega. Estamos conscientes de que há três equipas que estão a lutar pelo primeiro lugar”.

Marcha-atrás

O Sporting anunciou a contratação de Sinama-Pongolle, tornando-se o internacional francês o terceiro reforço do mercado de inverno para Carlos Carvalhal, após a chegada do central moçambicano Mexer e do ex-Braga João Pereira. Após anos de contenção, o clube de Alvalade dá sinais de apostar numa política de contratações menos restritiva, abrindo os cordões à bolsa e investindo em jogadores cujas qualidades já não serão verdadeiramente desconhecidas para os seus adeptos.

Os Sportinguistas perguntarão se se trata de uma inversão da sua política desportiva, aproximando-se da estratégia levada a cabo pelos clubes rivais, ou se é apenas uma mera situação circunstancial, dada a necessidade de apagar a péssima imagem deixada desde o começo da temporada até ao momento. Porém, uma outra questão poderá ser levantada: será este um sinal de que Carlos Carvalhal se manterá como a aposta de Bettencourt para 2010/2011?

Apesar do investimento a que assistimos, o Sporting mantém no seu plantel alguns valores ainda não devidamente potenciados ao máximo. Não estamos a falar, por certo, de Pedro Silva cuja valia já era conhecida entre nós ainda antes da sua contratação. Nem de Abel, cuja veterania já o impedirá de assumir a responsabilidade absoluta de ser um lateral-direito sem mácula (o mesmo se poderá dizer de Caneira, com a agravante da sua importância ao nível do balneário não se fazer sentir mais por estes dias). Ou até de Tonel, que de defesa-central imprescindível – único jogador do plantel que sabe jogar de cabeça – remetido ao esquecimento, dadas as notícias que veiculam a necessidade da contratação de um central, mesmo após anunciada a vinda de Mexer. Poderíamos ainda incluir nesta análise Grimi, por quem o Sporting perdeu a cabeça aquando a compra do seu passe, ou ainda Hélder Postiga, mais um exemplo de que contratar ao FC Porto poderá ser entusiasmante mas não representará simultaneamente mais qualidade (salve-se desta análise Rui Jorge e encontraremos com facilidade Romeu, Gomes, Bino ou Clayton, por exemplo). No entanto, esta conclusão recai sobre os mais jovens jogadores que o Sporting teima em manter no seu plantel: Bruno Pereirinha, André Marques, Adrien Silva e Yannick Djaló.

Todos estes jovens se afiguram como promessas e poucos duvidam de que terão algum valor. Naturalmente que um jogador como Djaló, tendo em conta a sua maior utilização, poderá estar mais exposto à crítica. Contudo, o seu crescimento – como dos colegas referidos – encontra-se bloqueado tendo em conta a insistência na sua permanência no plantel verde-e-branco. Poderá isto soar a um paradoxo, mas se analisarmos o percurso do futuro colega João Pereira (apesar da progressão não ter sido linear como a mais desejável se olharmos à sua dispensa do Benfica), vemos que o defesa-direito rodou no Gil Vicente, adquiriu experiência e cresceu no Braga, e apresenta-se agora pronto para entrar de caras no onze de um Grande nacional.

Deitemos, agora, um olhar ao caso de Bruno Alves. O Capitão do FC Porto estreou-se com 19 anos na equipa B na época de 2000/2001, passando os dois anos seguintes no outrora primodivisionário Farense. Da capital algarvia rumou à cidade berço, onde ingressou no Vitória aos 22 anos. Em 2004/2005 amargou pelo AEK de Atenas, onde juntou experiência europeia à rotina competitiva de um grande do campeonato grego.  Aos 24 anos regressou às origens e, apesar de ser o cepo que ainda era expulso de cada vez que jogava, amadureceu nos anos seguintes e tornou-se capitão do Tetra-Campeão.

Se compararmos os exemplos de João Pereira e Bruno Alves com a evolução das carreiras de Pereirinha, Adrien ou Djaló, vemos que a aposta do Sporting na formação não está a ser devidamente consumada. Falta esta etapa essencial àqueles que, não sendo predestinados como Figo, Ronaldo ou Simão, necessitam de rodagem para aos 24, 25 anos estarem prontos a honrar a camisola que vestem. Muito provavelmente Bruno Pereirinha poderia estar a ser a grande revelação da lateral-direita num Belém, tal como Adrien o esteio do meio-campo defensivo dum Olhanense. Assim como André Santos se está a revelar a um belíssimo jogador no Leiria.

A par de um forte investimento de modo a suprir carências no plantel, o Sporting necessita de fazer marcha-atrás na sua política desportiva e acrescentar quatro anos de formação aos jogadores vindos da cantera. Só assim a aposta poderá surtir efeito.

Não deixa de ser estranho que na predisposição de Paulo Bento tenha havido um volte-face. Ele que havia já concluído há cerca de um ano que no final da época passada se fechava um ciclo.

A tirada de JEB com um “Paulo Bento forever” só poderá ser entendida por duas razões. Primeiro, na assunção de que se trata do único funcionário do clube com perfil para o defender na praça pública, ie, veja-se por exemplo o modo como defendeu a equipa na noite da roubalheira da Taça da Liga ou quantas vozes se levantaram contra a mais recente arbitragem em jogos da UEFA em Alvalade. Segundo, a direcção – cumprindo escrupulosamente o desígnio da contenção orçamental – continua a apostar num modelo semelhante aos gloriosos “Busby Babes” fazendo crer que PB é o homem certo para fazer vingar a crença que Veloso, Montinho, Pereirinha, Patrício, Carriço ou Adrien estão no caminho certo para construir uma equipa fortíssima e que leve o SCP à hegemonia do futebol nacional por vários anos.

Poderá, eventualmente, haver alguma lógica nesta aposta. Porém, PB – treinador campeão dos juniores em 2005 – é um responsável técnico com quatro anos de treinador principal e com um plantel muito bom, contrariamente ao que a comunicação social quer fazer crer. Mas enquanto o Sporting lhe tem vindo a pagar a licenciatura, tem falhado em demasiados exames. Paulo Bento é o treinador dos 7 pecados mortais:

1. Campeão pelo Sporting em 2002, o nº 17 jogava como o trinco distribuidor de jogo – à semelhança de Veloso no Sporting de hoje -, com a rectaguarda fechada pelos centrais e um trinco mais defensivo, fosse ele Rui Bento ou Diogo, num esquema de 4-5-1, que por vezes abria em 4-3-3, tendo sempre Jardel jogado sozinho na área, coadjuvado por João Pinto que ocupava o espaço mais adiantado do nosso meio-campo. Já no Sporting Campeão de Portugal em 99/2000, foi assim com Duscher e Vidigal no miolo e Acosta sozinho na frente. Na selecção nacional, não me lembro alguma vez de ver PB jogar numa equipa com dois pontas-de-lança. Mais, no Euro’2000, PB jogou com Vidigal contra Inglaterra e Roménia, trocando de parceiro contra a Turquia (Costinha). Nas restantes equipas por onde passou – note-se, sempre mais pequenas e por ora mais defensivas – não me lembro de PB segurar o meio-campo defensivo sozinho. Como se pode explicar porque razão joga Veloso sozinho nesta posição, zona do terreno onde o Sporting já levou mais de 50% dos golos esta época? Falta um tinco para dar porrada, mas ainda existe Caneira ou Tonel para este trabalho – sujo – mas imprescindível.

2. Isto leva-me à segunda pergunta: porque a insistência em encontrar um parceiro para Liedson? A frente de ataque das equipas campeãs pelo Sporting em 2000 e 2002 jogavam sempre com um ponta-de-lança de rferência, cuja única função era a de finalização. No Sporting de PB os jogadores desta zona são também eles construtores de jogo. Liedson tem disfarçado este problema desde que o Sporting joga em losango, mas a verdade é que o baiano deveria ser um animal de área e usar o seu voluntarismo para a zona de finalização.

3. Vukcevic é um jogador triste. Não que a sua natureza futebolística seja triste, muito pelo contrário, mas é claramente um jogador à imagem dos anos 80. Lento, mas técnicamente evoluído, Vukcevic é um jogador para jogar atrás de Liedson e nunca para ocupar o terreno de Izmailov. Já marcou grandes golos de fora da área, porque é dos poucos que chuta à baliza. A sua qualidade de passe é tremenda, mas não tem velocidade para ir à linha e cruzar para a área – onde quase nunca há uma referência. Não é nenhum extremo, muito menos um interior. De carácter irascível, Vukcevic já o deu a entender em público mas foi dentro de campo que há muito que explicou a natureza deficiente que PB reservou para si neste Sporting. Vuk é daqueles que precisa de um Robson para espremer todo o seu potencial.

4. Quem é Bruno Pereirinha? Um jogador banal, decerto. Sem despontar, prima pela sua regularidade. Um jogador certinho, portanto. Nunca será o médio-direito que pensou poder vir a ser quando subiu a sénior. Deveria ter feito (tal como Adrian e Patrício) um trajecto à Bruno Alves: ir ganhar experiência pelos Farenses e Guimarães para aos 25 ter categoria para servir o Sporting. Não foi assim, e neste percurso titubeante como sénior, Pereirinha lá vai conquistando o lugar moral de ser o único defesa-direito de jeito no plantel. E será, tal como Patrício, um grande jogador do Sporting, uma grande referência do clube, no dia em que completar uma época com todos os jogos a titular na lateral direita da equipa.

5. Europa. Pode-se afirmar o mérito de PB ter colocado o Sporting sempre na Champions. Não o vou diminuir em momento algum, mais que não seja por termos ficado à frente dos lampiões (E NÃO DIGAM QUE NÃO, PORQUE DÁ-NOS SEMPRE IMENSO GOZO). Mas as contas fazem-se no fim e o que vimos na época passada foi isto: 5 do Madrid (Torneio Bernabéu), 5 do Barça, 5 e 7 do Bayern. Um ano antes Jorge Jesus saíra de Munique com o Belém com apenas 1-0 na mala e o ano passado levou o Braga para jogar olhos nos olhos com o Milan, perdendo 1-0 num jogo onde chegou a enxovalhar este colosso europeu. Sim, Jorge Jesus, esse Leão d’Ouro, 50 anos de quotas pagas que tinha acordo com Luís Duque na campanha eleitoral…

6. Gosto da rotatividade nas equipas. O Barça este ano estará presente em seis torneios oficiais, o que mostra essa necessidade. O Sporting, ao fim de seis jogos, estará presente em três. Mas este não é um conceito que se aplique ás nossas primas-donas Polga, Moutinho ou Liedson.

7. Laboratório. Este é um tema que melhor espelha o cunho de um treinador numa equipa. Sempre que o árbitro marca uma falta, o Sporting recua um metro do lance onde ela aconteceu. O Sporting não tem jogadas ensaiadas. O Sporting não sabe bater os cantos. O Sporting não define jogadores para marcar os foras. O Sporting não sabe bater penaltis. O Sporting não marca um golo de livre… Não se sabe quem é o marcador ofical de coisa-nenhuma. E depois não há jogadores matreiros, daqueles rufias à Porto que conseguem enervar adversários e influenciar jogos, Escola Octávio.

Gosto imenso do Paulo Bento e nunca vi nenhum treinador defender tanto o meu clube como este senhor.  Talvez a aposta de Franco tivesse sentido se trocássemos cadeiras e PB fosse antes o nosso director do futebol. Mas numa coisa, ele tem razão: “fechou-se um ciclo”. Pena que tenha sido para o Sporting… a ver vamos.

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Morreu Bobby Robson, o treinador de futebol de quem mais gostei, por quem tinha mais carinho.

A Robson associo as tardes de futebol no velhinho Alvalade, o estádio cheio, os jogadores a entrarem em campo com as camisolas de 1 a 11, os vendedores de queijadas e as almofadas que amaciavam as duras bancadas de cimento. O tempo em que o futebol era uma verdadeira festa.

Mais. Era a fé absoluta com que se dizia “este ano é que é!”. Era a equipa jovem e verdadeiramente atacante, que tinha deslumbrado em Riad e Lisboa, completada com internacionais como Balakov, Valckx, Naybet, Cherbakov. A faltar, um grande guarda-redes, um Schmeichel, e um predador da área como Acosta, pilares que vão oferecer o sofrido e saboroso título de 2000. Mas esse já era um Sporting diferente, operário.

Nos idos de 92/93, passando pelo louco verão quente e indo até ao cataclismo da eliminação de Salzburgo, com o despedimento no 1.º lugar de onde leões já estavam afastadas há mais de uma década e o acidente de Cherbakov, imperava a ilusão, o futebol ofensivo e espectacular, inocente. E ao ataque, sempre. Era uma equipa sem manhas, que jogava para ganhar contra os adversários mais experientes, os golos do Domingos em Alvalade e um sistema então em pleno esplendor.

Foi o zénite do projecto romântico de Sousa Cintra, que teve como primeiro grande maestro seu Marinho Peres, que ainda herda um espírito dos anos 80 com guerreiros como Oceano e Venâncio e chega às meias-finais da Taça UEFA para esbarrar contra os cínicos italianos.

Com Robson chega-se à explosão dos novos talentos. É o grande berço clubístico da geração de ouro, com tudo o de bom e de mau que isso teve. Os falhanços, tantos, e as glórias também, personificadas na expressão máxima do novo jogador português, Luís Figo, que esta época acabou também o seu percurso nos relvados.

A minha primeira recordação de Bobby Robson surge, no entanto, antes, no Mundial de Itália de 1990, à frente da melhor Inglaterra pós-66, com um Shilton experiente na baliza, Pearce a limpar tudo à frente da defesa, um meio-campo recheado com a inteligência de Platt e Waddle e a irreverência do miúdo Gascoigne, culminando na classe de Lineker na frente.

Inesquecíveis a montanha-russa de emoções contra o perfume selvagem dos Camarões de Roger Milla e a inglória derrota nas meias depois dos penalties contra os panzers da ainda RFA, após perdida de Gazza, já no prolongamento, em cima da linha de golo.

Depois de oito anos à frente da selecção, e de uma passagem pelo Ipswich que catapultou o clube de Portman Road para o 1.º plano inglês e europeu jogando sempre com a prata da casa, Sir Bobby segue para a Holanda onde ganha dois campeonatos com o PSV antes de chegar a Lisboa.

O resto é conhecido. Porto, Barcelona, PSV de novo, Newcastle, onde termina a carreira no gigante do nordeste, o clube do seu coração.

Fica, acima de tudo, a recordação quente desse Verão futebolístico no meio do actual Inverno do nosso descontentamento, à espera que apareça um novo sol de York.

Paixão madeirense

Na última edição da Liga o Nacional da Madeira conseguiu a proeza de repetir o 4º lugar alcançado em 2005-2006.  Para um clube de pequena dimensão – ainda que bastante suportado pela ajuda do Governo Regional – não deixa de ser assinalável terminar à frente do Braga de Jesus e apresentar o melhor marcador nacional, um tal de Nené que passou Liedson e Lisandro. O Nacional atravessa a melhor fase da sua história, e consolidou o estatuto de segundo clube da ilha (ultrapassando o União), fruto de uma forte liderança e da cultura de clube imposta por Rui Alves (e influenciada pelo FC Porto).

Apesar do sucesso do Nacional, o Marítimo continua a ser o Maior das Ilhas: 35 Campeonatos da Madeira, 24 Taças da Madeira, 27 presenças no escalão maior do futebol nacional (desde 1982/83 consecutivamente, força demonstrada após o fim da ostracização do futebol insular e consequente consolidação de uma organização mais profissional dos campeonatos nacionais). Desde essa altura que o Marítmo passou a ser um primodivisionário com naturais aspirações europeias, e as presenças no Jamor aconteceram por mais que uma vez.

Contudo, apesar da eterna força do Marítimo a oposição futebolística na Madeira sempre deu pelo nome de União, que  durante a década de 1960 chegou ao heptacampeonato da Madeira! Com uma identidade mais madeirense que os demais – equipa com as cores da bandeira regional – encontra a sua força nos adeptos mais idosos e que se encontram mais frequentemente pela Camacha, Machico e Caniçal. O União da Madeira acompanhou a tendência histórica do rival Marítimo, mas o seu lento declínio começou em meados da década de 1990 e o clube aguarda pelo rejuvenescimento da sua massa associativa, um necessidade um pouco semelhante à dos Belenenses.

A paixão pelo futebol na Madeira é que nunca foi sujeita a crises. Enquanto o início do pontapé na bola trouxe alguma glória para a região, como o Campeonato de Portugal de 1926 conquistado pelo Marítimo, nem a falta de fulgor dos meados do século XX afastaram os adeptos dos estádios de futebol madeirenses. O Caldeirão dos Barreiros sempre foi um campo difícil para qualquer equipa. Hoje, ir à Choupana é um pesadelo para quase todos.

A ilha da Madeira, à excepção das cidades de Lisboa e Porto, apresenta-se como a região do país onde existe a melhor rivalidade clubística nacional. Pode-se mesmo afirmar que existe uma cena futebolística madeirense que extravaza para todo o arquipélago.  Na RTP Madeira o horário nobre das segundas-feiras é preenchido pelo programa Prolongamento, uma espécie de Dia Seguinte ou Jogo Falado, onde os paineleiros são fervorosos notáveis adeptos regionais dos clubes do Funchal, que se degladiam verbalmente na defesa da sua equipa. Se passearmos pela Av. do Infante, seguramente que encontraremos um qualquer grupinho de velhotes a debaterem os casos da jornada: “O Duarte Gomes é sempre a mesma merda, lixa sempre as equipas da Madeira!”. Até na pacata ilha dourada o Marítimo pica o ponto na eleição da sua Miss, levando as beldades madeirenses até ao Porto Santo equipadas a rigor…

No entanto, esta paixão pelo futebol não salta imediatamente à vista dos mais incautos. Viajando pela Madeira é raro encontrar-se presença dos clubes mais representativos. Fazendo o paralelo com rivalidades intensas mas ofuscadas por por outras maiores, o derby de Sevilha poderia servir de exemplo para os madeirenses apaixonados pelo desporto-rei. Não faz sentido andar nas lojinhas de souvenirs de Porto Moniz ou da Vila Baleira e apenas encontrar a caneca do Benfica ou a toalha de praia do Sporting. Apenas no chinês da mesma Av. do Infante se encontram os cachecóis de Nacional e Marítimo, perdidos no meio das réplicas das camisolas de Cristiano Ronaldo. Muito pouco para tanto futebol.

Local de nascimento do actual melhor jogador da modalidade, a região orgulha-se deste filho pródigo que triunfa pela Europa e a imagem de Ronaldo está por toda a ilha. O aeroporto até parece sua propriedade! A imagem CR7 é tão intensa que até se esquece que o miúdo era um dos demais que se perdem no meio de tantos a jogar nas inclinações das ruas da periferia do Funchal. E que também ele um dia vestiu a camisola de um clube da terra. A Madeira deveria assumir a sua cena futebolística, e projectar o seu futebol a um nível mais presente, porque nem todas as regiões têm uma identidade tão forte.

Será só uma questão de paixão?

O Treinador Posh

Quique Flores

O Benfica disse adeus ontem aos seus adeptos nesta edição da Liga 2008/2009, dando o golpe de misericórdia nos vizinhos Belenenses. A equipa encarnada fez um bom jogo, mesmo entrando a perder, dando sequência à boa vitória alcançada em Braga. Termina a Liga em grande forma, fazendo bons jogos e marcando muitos golos.

derby de ontem ficará marcado por algumas despedidas. Em primeiro lugar a dos rivais de Belém, que pagaram com a descida de divisão os muitos erros cometidos durante a época. Erros desnecessários e que não podem ser compatíveis com a gestão de um clube com os pergaminhos dos Belenenses. Depois de uma excelente campanha liderada por Jorge Jesus, o Belém não poderia ter entregue o seu futebol às mãos de um sucateiro como Casimiro Mior, que juntou o verde-e-amarelo ao azul do Restelo e fez do Belém uma escola de samba. Fazemos votos para que o clube se (re)organize e regresse o quanto antes ao convívio com os maiores do futebol nacional. Um sinal de esperança no futuro: Rui Jorge. Se a estrutura dirigente apostar no talento do ex-lateral esquerdo, o clube e o futebol em geral terão muito a ganhar.

Segundo os jornais, Reys, Katso e Luizão também estarão de saída. O comportamento do central brasileiro no final do jogo também foi condizente com as propaladas notícias. O próximo mês nos dirá qual o destino, se Inglaterra, se a rectaguarda da formação da Luz novamente…

Contudo, mais indisfarçável que a dos demais foi a forma como Enrique Sanchéz Flores se despediu dos adeptos do Benfica. Se já desde a  derrota no Funchal e o empate com o Trofense se anunciara a sua saída, imaginamos que este final de campeonato não tenha sido fácil. As notícias a anunciarem o fim do seu consulado, os artigos de opinião em seu desfavor escritos pelos mesmos que afirmavam que Quique era um bom treinador aquando a sua chegada, e as constantes manchetes de jornal a indicarem a sua sucessão por Jorge Jesus, só poderão ter transformado os últimos dias de Quique em Lisboa num autêntico purgatório. Ainda assim, o treinador montou uma estratégia para a batalha de Braga que reduziu o futebol atacante de Jesus a mero discurso e acertou com este as suas contas em silêncio, vencendo categoricamente.

E, afinal, será apenas Quique mais um treinador de futebol?

Afilhado de Alfredo Di Stéfano, este madrileno nasceu no seio de uma família ligada ao mundo do espéctaculo. Filho de Carmen e sobrinho de Lola Flores, cantoras de Flamenco, Quique cedo percebeu o que era estar sob as luzes da ribalta. Atingiu o seu apogeu na lateral do Real Madrid, mas foi em Valencia que acabou por se notabilizar e fixar residência, ajudando o clube local enquanto jogador durante dez anos, e mais tarde orientando-o por mais dois. Cedo mostrou não ser uma figura convencional, fugindo bastante à retórica habitual dos terinadores de futebol, fazendo por vezes as delícias dos jornalistas.

Como proveniente de uma realidade futebolística diferente, onde a bola convive entre os melhores artistas da modalidade, Quique Flores chegou ao Benfica pela mão de Rui Costa com a áurea de ser um bom treinador. Jovem, metódico, disciplinador, com a experiência de haver treinado equipas nas Ligas espanhola e dos Campeões, Quique era visto como o Homem-chave que faria a perfeita conexão entre Vieira e Rui Costa. Conseguiu trazer jogadores à partida considerados inimagináveis para o futebol português, como Aimar ou Suazo. Venceu o Nápoles e o Sporting no começo da época, e a equipa ganhou motivação. Parecia que tudo se conjugava a seu favor.

A eliminação precoce da Taça de Portugal em Matosinhos, antecida pela desastrosa campanha na UEFA onde a goleada de 5 – 1 com o Olimpiacos e a derrota caseira com os desconhecidos Metalist (!) começaram por apontar o caminho da porta dos fundos ao treinador espanhol. Face à constante impaciência que muito caracteriza os adeptos encarnados, Quique nunca perdeu a calma e soube sempre reagir perante o exterior. A sua imagem não se desgatou imediatamente perante os media.

Como facilmente se poderá concluir, Quique empresta ao futebol o lado cor-de-rosa que poucas vezes nele se encontra. O seu espírito afável e simpatia intrínsecos despertaram a atenção de outros sectores da actividade jornalística e o madrileno tornou-se uma vítima das gossip magazines portuguesas. Não terá sido com a maior aceitação que o clã Flores terá reagido ao ver a reportagem sobre os casos que Quique teve em Lisboa, como noticiaram a Caras e o Correio da Manhã.

Dias de Paixão em Lisboa

A pergunta impõem-se: terá o treinador do Benfica contribuído para esta curiosidade à sua volta? Sim. Não apenas pela sua personalidade aberta que o mostra ao mundo como um homem interessante, mas também pela total disponibilidade para as solicitações de que foi alvo. Quique Flores é um treinador posh, que sabe o que é estar sobre as atenções e que não nega o seu contributo para a indústria do espectáculo. Será esta postura divergente dos superiores interesses do clube? Não nos parece. Até porque qualquer treinador que passe pelo clube da Luz será sempre alvo de assédio por parte do exterior. A diferença entre Quique e os demais é apenas uma questão de estilo.

A última cena

Apesar de partir da aventura em Lisboa apenas com a Taça da Liga que Lucílio o ajudou a levantar, Quique deixará saudades. Prova disso foram os cartazes e tarjas de apoio à continuidade do espanhol no banco do Benfica. Fazendo jus à sua condição de homem com nível, o espanhol despediu-se dos adeptos de forma emocionada e agradeceu a oportunidade por ter treinado o Benfica. Quique Flores foi uma lufada de ar fresco no panorama dos treinadores da Liga nacional, num futebol em que a cátedra dá pelos nomes de Vieira, Loureiro ou Pinto. Um homem sereno, calmo, pouco intempestivo, que nos momentos difíceis não fraquejou face aos críticos. Poderá ter tido pouca sorte, poderá ter comitido alguns deslizes (como quando encostou David Luiz à esquerda e  levou um banho de bola em Alvalade), poderá não ter sido devidamente apoiado, poderá ter encontrado muitos obstáculos e sai como mais um treinador que passou pelo Benfica sem sucesso. Encontrará a sua melhor sorte no seu país natal, seja num Bétis ou Atlético Madrid, porque a merece.

Portugal perde um gentleman. E o Benfica a oportunidade de dar sequência a um projecto. Buena suerte Quique!

Noite de Taça

Esta noite jogaram-se duas finais de Taça em dois países latinos: Itália e Espanha. Em Roma, a Lazio recebeu a Sampdoria. Em Valencia defrontaram-se Athletic e Barça.

Jogar-se uma final de Taça a uma quarta à noite é mesmo coisa de noite europeia. Apesar da má qualidade do nosso futebol, o facto de ir ao Jamor ainda ser uma tradição leva-me a pensar que em Portugal ainda há razões para acreditar numa identidade própria. É verdade que o Estádio Nacional não apresenta grandes condições, mas só a questão de ser um campo neutro e o fascínio que encerra em disputar-se um título no único jogo de alta competição que nele se disputa anualmente faz com que os portugueses consigam esbater a diferença. À parte de ser um dia de festa, onde milhares de portugueses confraternizam entre bifanas e sardinha assada. Ainda assim, gostaria de deixar uma sugestão quanto à revisão do modelo da Taça. Seria digno contemplar, na sua fase final, a presença de jogos em outros campos menos frequentados e em zonas do país com menos acesso ao futebol nacional de primeira, como é o caso dos Açores, da Beira Interior, de Trás-os-Montes ou do Alentejo. Levar a Taça de Portugal a estes campos poderia conferir uma excepcionalidade única à prova raínha do futebol português.

Voltando às finais de hoje, a Lazio acabou por bater a Samp no seu estádio e fazer a festa após a marcação da 6ª grande penalidade. Muslera mostrou-se um guarda-redes com feeling para os penalties e a sua irreverência permitiu aos laziale a vitória, depois de 120 minutos pobres, sem espectáculo, em que ambas as equipas se mostraram dependentes dos seus principais artistas: Cassano e Zarate. No Mestalla,  o Athelic entrou melhor e adiantou-se no marcador aos 8′ por Torquero. O Barça empatou aos 30′ num golo de Touré, que decidiu festejar juntos dos adeptos bascos rasgando uma manga da sua camisola… Na segunda parte o Barça esteve imparável e Messi, Bojan e Xavi acabaram com os sonhos bilbaínos.

Numa noite em que Osman Dabo, o jogador negro da Lazio, marcou o penalty que fez os Irriducibili festejar, a TVE acabou por não transmitir os instantes em que tocou o hino nacional espanhol preferindo fazer dois directos nas cidades dos clubes que disputavam a Taça. Ao intervalo, a televisão pública espanhola passou as imagens do momento em diferido, mas com uma montagem que tornava o hino audível por cima do ruído registado no Mestalla, desculpando-se com um “erro humano”. Na verdade, o erro humano tem que ver – uma vez mais – com a essência da afición dos clubes finalistas: milhares de apitos ensurdecedores abafaram o som do hino enquanto desfraldavam bandeiras independentistas em todo o estádio, numa manifestação política já esperada desde que se sabia que seriam estas as equipas que se defrontariam. Numa das bancadas onde se encontravam os catalães (curiosamente em minoria face à enormíssima [!] presença dos adeptos bascos na cidade Ché) havia mesmo uma tarja que dizia: ” We are nations of Europe, Good Bye Spain”. E, assim, o Barça deu o primeiro passo no objectivo triplete vencendo a 25ª Final de la Copa de Sua Majestad El Rey d’España. Em Roma como em Valencia, o futebol no seu estado puro: a expressão natural do carácter de cada povo.

Rei Juan Carlos entre os Bascos